A incrível melodia pacífica produzida pelos grilos era ouvida dentro daquele quarto de paredes gastas e pintura já descascada. Nele, um casal aconchegava-se tranquilamente, prontos para apagar a luz da vela que repousava-se em um pires de porcelana, trabalhado delicadamente com detalhes florais azuis. A mulher mulata terminava de desembaraçar os cabelos com uma escova dada de presente pela sua avó, já há muito tempo falecida. O homem, robusto, forte e de pele tostada pelos vários dias em que ficara no sol impiedoso do meio-dia, olhava para o teto, pensativo. Uma teia de aranha balançava-se suavemente, com ajuda da brisa que adentrava pelas frestas do telhado. Por um instante, o homem se perguntou como uma aranha seria capaz de produzir uma armadilha tão elaborada para capturar sua presa, mas esse pensamento foi-lhe interrompido quando a mulher deu-lhe um beijo de boa noite, e disse para apagar a vela. Ao soprá-la, o homem sentiu um estranho arrepio percorrer-lhe as costas. Não sabia porque isso havia ocorrido, mas era quase como se fosse um pressentimento. Na realidade, ele não queria ter apagado a vela. A escuridão completa tomou o quarto e a casa, de modo que qualquer coisa poderia entrar ali, sorrateira e perigosamente, e tirar-lhe tudo o que lhe era de mais precioso. Sua família.
Muito tempo depois de já ter se deitado, acordou no meio da noite. O homem fechou os olhos novamente, louco para voltar a adormecer, quando percebeu que havia algo de errado no ar. Qualquer coisa... estranha, mas não soube definir o que era. Um pouco intrigado, acabou perdendo o torpor do sono. Por que estava tendo aquela sensação? Aconchegou-se para mais perto do corpo quente e imóvel da mulher, que ressonava tranquilamente, e enterrou o nariz em seus cabelos soltos em volta do travesseiro. Tinha aquele cheiro conhecido de fumaça de lenha queimada, e isso sempre o acalmava. Prestes a fechar os olhos novamente, ouviu um barulho, alto e claro no meio da madrugada, que ecoou pela casa e pelo lado de fora.
Abriu os olhos, encarando a escuridão, enquanto seus ouvidos prestavam atenção para qualquer barulho lá fora. O eco do barulho que havia ocorrido já ia desaparecendo, quando mais um ocorreu. Depois outro. E mais outro. Até que tudo se transformou em uma sequência, que era rápida e não tinha um ritmo específico. Foi só então que ouviu o som de rangidos que percebeu que eram batidas na porteira. Alguém estava balançando-a.
Sua mulher mexeu-se ao seu lado, inspirando profundamente, então ouviu-a suspirar. Ela virou a cabeça, e perguntou numa voz rouca e sussurrante:
- O que é isso?
- Eu não sei. – respondeu o homem. Depois de algum tempo, disse: - Parece que alguém está balançando a porteira.
Eles ficaram em silêncio, e as batidas continuavam sem cessar. Esperaram um certo tempo, pensando que talvez a pessoa que estivesse balançando a porteira se cansasse e fosse embora, mas eram intermináveis. Não paravam nunca.
- Você vai lá ver o que é? – perguntou a mulher, sentando-se na cama, já completamente acordada.
O homem não disse nada. As batidas continuavam, e o som dos rangidos se tornavam cada vez mais altos. Se a pessoa que estivesse lá fora continuasse balançando a porteira, as dobradiças poderiam se soltar.
Uma sombra tomou conta da porta do quarto, e a voz retumbante do filho mais velho do casal disse:
- Pai, quem tá balançando a porteira?
O homem se levantou, coçando a cabeça, frustrado.
- Eu não sei filho, mas seja quem for vai levar uma surra.
Acenderam algumas velas, e procuraram um velho chicote de couro que pertencia à família há tempos. Estavam prestes a sair pela porta quando a voz da mulher os interrompeu. Chamava-os para verem algo pela janela. O filho do casal olhou e soltou um arquejo, e então encarou o pai, aflito.
- Pai, corre aqui pro senhor ver!
O homem correu até a janela, e sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Pela luz pálida da madrugada sem nuvens, havia um cachorro. Não, um cachorro não, um lobo! Era mais alto que um labrador adulto, e tinha um pelo negro que misturava-se com as sombras medonhas dos ipês que rodeavam a porteira da propriedade. Estava de pé, apoiado nas patas traseiras, fazendo com que ficasse alto, quase da altura de um homem adulto. As patas dianteiras estavam apoiadas na porteira, e ele impulsionava o corpo para frente e para trás, balançando-a. As dobradiças da porteira protestavam contra as sacudidas violentas, rangendo audivelmente em meio às batidas.
- É um lobo? – perguntou o filho do casal, tentando ver através da cabeça do pai.
Então o lobo parou de balançar a porteira. O som da última batida ecoou pelo ambiente e desapareceu. Silêncio. O silêncio que se seguiu foi terrível. O homem olhou atentamente para o lobo, e sentiu seu queixo cair ao perceber que ele olhava na direção da janela onde ele estava. Seu corpo estremeceu ao se dar conta que a criatura olhava para ele. O coração do dono da casa deu um salto ao vê-lo se movendo. O lobo pousou as patas dianteiras no chão, ficando de quatro, e passou por debaixo da porteira, caminhando em direção à casa.
- Está vindo pra cá. – sussurrou a mulher, horrorizada.
Como que ensaiado, o lobo parou de andar, olhou para o lado, na direção do curral, e encaminhou-se para lá. Alguns segundos depois, ouviram as vacas mugindo, frustradas, e os cavalos relincharem, assustados.
- Pai, ele está assustando os bichos do curral. Temos que tirar aquele lobo de lá.
O pai concordou com o filho, e então fizeram um plano. O garoto sairia pela porta e seguiria em direção ao curral. O pai correria ao quarto do filho mais novo (que estava começando a despertar) e abriria a janela do quarto. A janela dava para o curral, de modo que o pai pudesse distrair o lobo para que seu filho chegasse sorrateiro e chicoteasse-o para assustar o animal e mandá-lo embora.
O filho saiu pela porta e o pai se encaminhou para o quarto de seu filho caçula. Ignorando as perguntas aflitas do filho, o homem correu até a janela que estava fechada e abriu-a lentamente. A janela rangeu, e pela fresta que se abrira, ele pôde ver algumas vacas mexendo-se inquietas em seus espaços, e viu o lobo. Farejava um monte de esterco caído ao chão, distraidamente.
Com as mãos trêmulas de nervoso, o homem pôs-se a abrir um pouco mais a janela, tomando cuidado para não fazer barulho. Não soube bem se desviou os olhos ou por que desviou, mas quando voltou a olhar para o lado de fora da janela, sentiu seu corpo gelar até a alma. Estava de cara a cara com o lobo. Tinha a cara peluda, dentes pontudos que se projetavam para fora da boca, e um focinho salpicado de pedaços de alguma refeição que comera anteriormente. Seus olhos eram vermelhos, gélidos e vidrados, e encaravam o homem de forma astuta, mas havia um brilho qualquer de divertimento naqueles olhos bizarramente inteligentes. Mas o pior de tudo era o barulho que a criatura fazia. Uma espécie de arquejo, rouco e maléfico. O homem afastou-se da janela, assustado. O lobo piscou e saiu dali, e pela fresta da janela, ele pôde ver o filho chegando ao curral.
Do lado de fora, a criatura saiu do curral. No exato momento em que pisou as patas negras e peludas para fora do local, os animais se aquietaram, ficando em absoluto silêncio, como se nada houvesse passado ali.