20 de set. de 2014

Um conto de horror, ou quase isso (por A.H.)

  A incrível melodia pacífica produzida pelos grilos era ouvida dentro daquele quarto de paredes gastas e pintura já descascada. Nele, um casal aconchegava-se tranquilamente, prontos para apagar a luz da vela que repousava-se em um pires de porcelana, trabalhado delicadamente com detalhes florais azuis. A mulher mulata terminava de desembaraçar os cabelos com uma escova dada de presente pela sua avó, já há muito tempo falecida. O homem, robusto, forte e de pele tostada pelos vários dias em que ficara no sol impiedoso do meio-dia, olhava para o teto, pensativo. Uma teia de aranha balançava-se suavemente, com ajuda da brisa que adentrava pelas frestas do telhado. Por um instante, o homem se perguntou como uma aranha seria capaz de produzir uma armadilha tão elaborada para capturar sua presa, mas esse pensamento foi-lhe interrompido quando a mulher deu-lhe um beijo de boa noite, e disse para apagar a vela. Ao soprá-la, o homem sentiu um estranho arrepio percorrer-lhe as costas. Não sabia porque isso havia ocorrido, mas era quase como se fosse um pressentimento. Na realidade, ele não queria ter apagado a vela. A escuridão completa tomou o quarto e a casa, de modo que qualquer coisa poderia entrar ali, sorrateira e perigosamente, e tirar-lhe tudo o que lhe era de mais precioso. Sua família.


Muito tempo depois de já ter se deitado, acordou no meio da noite. O homem fechou os olhos novamente, louco para voltar a adormecer, quando percebeu que havia algo de errado no ar. Qualquer coisa... estranha, mas não soube definir o que era. Um pouco intrigado, acabou perdendo o torpor do sono. Por que estava tendo aquela sensação? Aconchegou-se para mais perto do corpo quente e imóvel da mulher, que ressonava tranquilamente, e enterrou o nariz em seus cabelos soltos em volta do travesseiro. Tinha aquele cheiro conhecido de fumaça de lenha queimada, e isso sempre o acalmava. Prestes a fechar os olhos novamente, ouviu um barulho, alto e claro no meio da madrugada, que ecoou pela casa e pelo lado de fora.
    Abriu os olhos, encarando a escuridão, enquanto seus ouvidos prestavam atenção para qualquer barulho lá fora. O eco do barulho que havia ocorrido já ia desaparecendo, quando mais um ocorreu. Depois outro. E mais outro. Até que tudo se transformou em uma sequência, que era rápida e não tinha um ritmo específico. Foi só então que ouviu o som de rangidos que percebeu que eram batidas na porteira. Alguém estava balançando-a.
    Sua mulher mexeu-se ao seu lado, inspirando profundamente, então ouviu-a suspirar. Ela virou a cabeça, e perguntou numa voz rouca e sussurrante:
    - O que é isso?
    - Eu não sei. – respondeu o homem. Depois de algum tempo, disse: - Parece que alguém está balançando a porteira.
    Eles ficaram em silêncio, e as batidas continuavam sem cessar. Esperaram um certo tempo, pensando que talvez a pessoa que estivesse balançando a porteira se cansasse e fosse embora, mas eram intermináveis. Não paravam nunca.
    - Você vai lá ver o que é? – perguntou a mulher, sentando-se na cama, já completamente acordada.
    O homem não disse nada. As batidas continuavam, e o som dos rangidos se tornavam cada vez mais altos. Se a pessoa que estivesse lá fora continuasse balançando a porteira, as dobradiças poderiam se soltar.
    Uma sombra tomou conta da porta do quarto, e a voz retumbante do filho mais velho do casal disse:
    - Pai, quem tá balançando a porteira?
    O homem se levantou, coçando a cabeça, frustrado.
    - Eu não sei filho, mas seja quem for vai levar uma surra.
    Acenderam algumas velas, e procuraram um velho chicote de couro que pertencia à família há tempos. Estavam prestes a sair pela porta quando a voz da mulher os interrompeu. Chamava-os para verem algo pela janela. O filho do casal olhou e soltou um arquejo, e então encarou o pai, aflito.
    - Pai, corre aqui pro senhor ver!
    O homem correu até a janela, e sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Pela luz pálida da madrugada sem nuvens, havia um cachorro. Não, um cachorro não, um lobo! Era mais alto que um labrador adulto, e tinha um pelo negro que misturava-se com as sombras medonhas dos ipês que rodeavam a porteira da propriedade. Estava de pé, apoiado nas patas traseiras, fazendo com que ficasse alto, quase da altura de um homem adulto. As patas dianteiras estavam apoiadas na porteira, e ele impulsionava o corpo para frente e para trás, balançando-a. As dobradiças da porteira protestavam contra as sacudidas violentas, rangendo audivelmente em meio às batidas.
    - É um lobo? – perguntou o filho do casal, tentando ver através da cabeça do pai.
    Então o lobo parou de balançar a porteira. O som da última batida ecoou pelo ambiente e desapareceu. Silêncio. O silêncio que se seguiu foi terrível. O homem olhou atentamente para o lobo, e sentiu seu queixo cair ao perceber que ele olhava na direção da janela onde ele estava. Seu corpo estremeceu ao se dar conta que a criatura olhava para ele. O coração do dono da casa deu um salto ao vê-lo se movendo. O lobo pousou as patas dianteiras no chão, ficando de quatro, e passou por debaixo da porteira, caminhando em direção à casa.
    - Está vindo pra cá. – sussurrou a mulher, horrorizada.
    Como que ensaiado, o lobo parou de andar, olhou para o lado, na direção do curral, e encaminhou-se para lá. Alguns segundos depois, ouviram as vacas mugindo, frustradas, e os cavalos relincharem, assustados.
    - Pai, ele está assustando os bichos do curral. Temos que tirar aquele lobo de lá.
    O pai concordou com o filho, e então fizeram um plano. O garoto sairia pela porta e seguiria em direção ao curral. O pai correria ao quarto do filho mais novo (que estava começando a despertar) e abriria a janela do quarto. A janela dava para o curral, de modo que o pai pudesse distrair o lobo para que seu filho chegasse sorrateiro e chicoteasse-o para assustar o animal e mandá-lo embora.
    O filho saiu pela porta e o pai se encaminhou para o quarto de seu filho caçula. Ignorando as perguntas aflitas do filho, o homem correu até a janela que estava fechada e abriu-a lentamente. A janela rangeu, e pela fresta que se abrira, ele pôde ver algumas vacas mexendo-se inquietas em seus espaços, e viu o lobo. Farejava um monte de esterco caído ao chão, distraidamente.
    Com as mãos trêmulas de nervoso, o homem pôs-se a abrir um pouco mais a janela, tomando cuidado para não fazer barulho. Não soube bem se desviou os olhos ou por que desviou, mas quando voltou a olhar para o lado de fora da janela, sentiu seu corpo gelar até a alma. Estava de cara a cara com o lobo. Tinha a cara peluda, dentes pontudos que se projetavam para fora da boca, e um focinho salpicado de pedaços de alguma refeição que comera anteriormente. Seus olhos eram vermelhos, gélidos e vidrados, e encaravam o homem de forma astuta, mas havia um brilho qualquer de divertimento naqueles olhos bizarramente inteligentes. Mas o pior de tudo era o barulho que a criatura fazia. Uma espécie de arquejo, rouco e maléfico. O homem afastou-se da janela, assustado. O lobo piscou e saiu dali, e pela fresta da janela, ele pôde ver o filho chegando ao curral.
    Do lado de fora, a criatura saiu do curral. No exato momento em que pisou as patas negras e peludas para fora do local, os animais se aquietaram, ficando em absoluto silêncio, como se nada houvesse passado ali.

13 comentários:

  1. Nossa!
    Adoro coisas de terror/suspense/horror, e não poderia ser diferente com esse conto. Me vi tensa em algumas partes de leitura.
    Você escreve muito bem Alexandre!
    Deveria trazer mais conto aqui para o blog *o*
    Beijos
    Construindo Estante || Facebook

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    1. Ha! Obrigado, Lia! Penso em ser escritor, mas estou incerto quanto a isso. Tenho que treinar a escrita, e etc. Mas com certeza vou escrever mais contos.

      Obrigado mesmo pelos elogios, Lia! :D

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  2. Alexandre!!!
    Isso tá muito bom!
    Como já sabe, sou muito fã de Stephen King, portanto sou muito fã de tudo que tenha a terror/suspense/loucura.
    Que esse seja o primeiro de muitos contos no blog :)

    Abraço

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    1. Valeu, Diego!!

      Pretendo escrever mais contos. Também sou fã de tudo o que é que tenha haver com suspense e terror. Edgar Allan Poe e Stephen King são ícones literários pra mim. Sensacionais! :)

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    2. Edgar Allan Poe tbm!
      Gosto de "O Corvo" e li recentemente "O Gato Preto", quero comprar a coletânea de contos dele :)

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  3. Olá
    Nossa, parabéns!
    Adorei o conto e maneira de como foi narrado. Publique mais destes pra nos, leitores.
    Abraços

    estantejovem.blogspot.com.br

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    1. Valeu, Paulo! Fico feliz que tenha gostado do conto! Fique ligado no blog, pois com toda a certeza, virão mais contos como esse. :D

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  4. Oii

    Nossa, gostei bastante. Espero que encare como um elogio quando digo que me lembrou bastante Stephen King, mais especificamente um conto chamado Aqui Há Tigres. Não sei se foi sua intenção, mas senti um terror mais puxado para o lado psicológico, o tipo de leitura que tenho feito bastante ultimamente.

    Parabéns mesmo. Li ali que você pretende ser escritor, compartilho dessa vontade com você... Escreva mais, poste aqui, vou gostar de ler.

    Abraço

    Theo / Mania de Leitor
    http://maniadeleitor.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado, Paulo! Nunca li esse conto do Stephen King, mas agora que mencionou, não vou demorar, provavelmente.

      Meu avô me contou uma história na qual foi baseado esse conto. Fiquei com muito medo da história que ele contou para mim: lembro que nem tinha conseguido dormir direito. Quando escrevi o conto, eu me arrepiava conforme colocava as palavras. Minha intenção não foi criar um conto de terror psicológico, nem nada que tenha uma estrutura parecida. Minha intenção foi escrever um conto de horror. Fico feliz que tenha pensado nisso. Acho que coloquei tanto medo que sentia daquela história contada por meu avô neste conto que devo ter, sim, puxado mais pro lado psicológico. Afinal, o medo às vezes é uma sensação psicológica, penso eu...

      Enfim, eu penso em ser escritor. É um sonho que vem na minha cabeça há alguns anos. E você? Já escreveu algum conto/poesia/romance etc? É sempre bom ler coisas de outros autores, e já que você tem vontade de ser escritor... Se já escreveu alguma coisa, envie, ou poste no blog... Gostaria bastante de ler! :)

      Pretendo escrever mais contos, sim. Como estes, ou diferentes, enfim. Vou postar. E obrigado outra vez!

      Abraços!

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  5. Gostei, amo contos, tanto lê-los como escreve-los.
    Você é um ótimo autor.
    Continue a publica-los para nós, o que define um bom autor é a prática.
    Beijos ^_^

    P.S.: Tirem o Captxa dos comentários Hauhauha

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    1. Olá, Kris!
      Que bom que gostou do conto, e obrigado pelos elogios. Vou postar mais destes, com certeza!

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